sábado, 22 de maio de 2010

Carol

Solitária, assustada, insegura, interrompida, cheia de extremos,incompreendida, rejeitada, cada vez mais triste, a garotinha que acreditava continua caminhando...
Embora não seja mais uma garotinha, não seja mais tão assustada. Embora sinta o peso do mundo em seus ombros... Ela caminha.
Possui inúmeras perguntas rodeando sua cabeça
[Pra quem faço falta e aonde me encaixo?], milhões de preocupações[com o filho, com a família, com os amigos, com os estudos, com o trabalho]. Milhares de baldes de lágrimas guardados no peito, sonhos perdidos, planos desperdiçados, desejos escondidos,e tão bem guardados, que às vezes até ela não acredita que sejam dela...
Ela chora às vezes, mas bem baixinho e no escuro,
pra ninguém ver nem ouvir... Para não ter que dar respostas. Cultiva medos: medo de não conseguir avançar, de sofrer, medo de fracassar, de fazer os outros sofrerem, de tudo sair diferente do planejado mais uma vez, medo de errar... Ela sabe que não pode mais errar...
Reza sempre. Confia em Deus. Apesar da sua incrível mania de desacreditar para acreditar; acreditar achando que vai se enganar... Ela sabe que têm situações na vida que a única saída é rezar, ter fé... Ela reza para não se perder no caos da balbúrdia sem nexo. Quando não sabe mais o que fazer. Para não enlouquecer.
A garotinha, que já é mãe, ainda carrega em si traços de criança: tenta se esconder do mundo e, SONHA! Ela busca a certeza e a sinceridade de um olhar... Conhecer alguém, não ter que esperar “deixar rolar”... Olhá-lo e sentir aquela sensação de “é esse!” lhe invadir... E se pergunta: como será? Porque só sente "pode ser esse, ou talvez possa ser esse ou talvez se ele quisesse, poderia ser esse...". Não, ela não quer mais isso!
Cansada de palavras, de promessas, de ilusões,
de construir e demolir castelos de fantasias, das devoluções do seu corpo. Cansada de expor sua alma para quem não dá valor, ela ainda se pergunta se no fim tudo acaba mesmo? Acabam? Os sonhos, a magia, a pureza? Eles dissipam na chuva...
Pensa em fadas-madrinhas, príncipes encantados, contos de fada e histórias com finais felizes o tempo todo... Ela gosta dos finais felizes das histórias, porque seu destino só escreveu finais tristes... Até agora...
Porque sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: ela ACREDITA, ACREDITA, ACREDITA... Acredita que TUDO ainda vai dar certo... Ela acredita que quem acredita somente no que vê, se esconde atrás do que realmente é e sente, tem pena de pessoas assim, porque acredita que o mundo delas é demasiadamente pequeno... Ela ainda acredita no amor, em casamentos na igreja, vestidos brancos simbolizando a pureza, em véu e grinalda, e naquele juramento de “até que a morte nos separe”,
em famílias felizes... Ela acredita e precisa acreditar na ilusão do amor
para não se afundar no poço da sua solidão absoluta... Ela acredita que sonhos podem se realizar... Acredita nos esforços que trazem resultados, que escolhas podem mudar uma vida, no trabalho que traz o pão, na pureza dos sentimentos, nas pessoas de alma pura e coração aberto...
Hoje, teve vontade de chorar logo pela manhã,
olhou para a mãe ao seu lado, olhou para cima, para o Cristo pendurado na cruz da Igreja e engoliu o pranto a seco, sem derramar uma lágrima... Conseguiu evitar a dor e o pranto até o meio da tarde. Alguma coisa, ou alguém lhe faz falta. Alguma “coisa” sempre faz falta.
Sente um pouco de dor. Não uma ferida nova, apenas como se fosse uma farpa. Mas, coisas assim, podem deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa chaga com dimensões mais que ordinárias.
Mas, ela acredita que as coisas ainda vão melhorar. Ela já desistiu demais de muitas coisas, de muitas pessoas... Ela não quer mais desistir, segue adiante. Concentrando toda a sua energia para não tombar. Querendo a partir deste momento, já, iminente, ser feliz.


Aqui, a observá-la, me pergunto: será que ela consegue?

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Se puder sem medo




"Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora
a dor no coração se expande

Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava"



Oswaldo Montenegro